quinta-feira, 13 de março de 2014

edifício london - lucas arantes







editado pela coruja de ribeirão preto na coleção rascunho, a dramaturgia de lucas arantes foi inspirada no caso isabela nardoni, assassinada pelo seu pai e a madrasta em 2008.  ano passado a peça esteve presente nos principais sites de notícias do brasil. o espetáculo produzido pela companhia os satyros foi proibido pela justiça paulistana de se apresentar devido a uma ação da mãe, ana carolina oliveira. pouco mais tarde o livro contendo a peça também foi recolhido das livrarias.

dias antes da proibição da venda do livro, quando a peça já havia sido cancelada, lucas me enviou um exemplar. agora, depois de quase um ano, me parece propício relembrar o acontecido, principalmente porque a lei das biografias não autorizadas está sendo debatida e julgada.

mas antes vamos falar um pouco sobre o texto.

estruturalmente o texto apresenta de maneira clara uma influência no formato da tragédia, com algumas adaptações que tentam dar conta das formas da contemporaneidade. o texto é divido em 21 cenas mais um epílogo. são 30 personagens apontados pelo dramaturgo, mas, de fato, a peça se desenvolve entorno de três principais: a menina, o homem, a mulher; e ainda outros três coadjuvantes que auxiliam na construção do enredo: a mãe, o vizinho e o mendigo.

o texto apresenta de maneira rápida a relação de confiança e afeto entre a menina e a mãe, mas também revela algumas imaturidades. o enredo segue dando ênfase maior à relação da menina com o pai e a madrasta, que mantêm entre si uma convivência difícil e entrelaçada de mistérios e incertezas. ao assassinato da menina (os motivos se misturam a um ambiente psicológico muito conturbado) segue uma série de julgamentos e hipóteses de toda a situação, fazendo referência a fatos reais que exaltam toda a confusão que o acontecimento trouxe para a sociedade de então, ainda tão baseada em valores familiares.

abrindo e fechando o texto encontramos o personagem do bufo melancólico, que - com função similar ao coro das tragédias gregas - apresenta o enredo inicial da peça e igualmente o encerra propondo ao leitor algumas reflexões. esta figura parece, desde o início, querer nos colocar diante de um acontecimento tão antigo: o assassinato de um filho pelos próprios pais. evocando dante alighieri, o bufo melancólico evoca: “deixem todas as esperanças”. com isso percebemos que o fim trágico dos enredos teatrais de mais de 2500 anos atrás, medea, por exemplo, aqui também se repete.

uma construção importante a ser ressaltada, é a forma como o autor decidiu designar os personagens. o pai e a madrasta da personagem menina são nomeados como homem e mulher e a designação de pai fica indicada para o pai do homem, neste caso o avô. dessa maneira o autor indica, logo no início que o personagem homem não deve ser identificado como uma figura paterna, o que acontece também com a madrasta, que é designada como mulher.

por outro lado, a figura da mãe aparece poucas vezes no texto, apenas em 03 momentos, fazendo com o que sua interação com aquela situação seja igual ao do personagem vizinho, que também aparece 03 vezes na dramaturgia, não atuando sobre a situação mas apenas acompanhando, quase voyeristicamente. isso nos traz a impressão de que a ideia de família já se apresenta desestruturada antes mesmo do assassinato, fazendo com que esse fato se apresente como uma consequência de um paradigma na formação das famílias na contemporaneidade. onde está a figura do pai? como se relacionar com a figura coadjuvante da mãe na formação dos filhos? o texto apresenta essa situação, mas, propositadamente, não faz nenhum pré-julgamento.

os outros elementos clássicos da tragédia são encontrados na dramaturgia de lucas arantes: a unidade de ação, a coerência dos personagens e principalmente a existência de um conflito que desemboca numa grande tragédia.





porém uma característica salta à ordem trágica: a condução dramática é atravessa por uma forte exploração do intrasubjetivo dos personagens, característica que szondi identifica como uma caminhada em direção aos gêneros lírico e épico. a poeticidade dos personagens é contrastada com as ações e contexto tão ligados à realidade. em vários momentos os personagens parecem avançar num universo muito particular no qual suas escolhas são colocadas à prova e o sentimento de dúvida é exaltado. isso é reforçado principalmente com a aparição do personagem mendigo que, como um oráculo grego, adiciona ao universo do texto ainda mais mistério e subjetividade, aflorando a reflexão e o pensamento que por horas parecem desembocar na loucura dos personagens.

isso nos parece ser um ganho se considerarmos que todo o universo do texto é construído a partir da incerteza das ações: o sono, a bebida, as drogas, o psicológico abalado, a construção proposital de inverdades são a todo momento evocadas de maneira que leitor possa duvidar, desde o início, da realidade dos fatos.

por outro lado, o uso exacerbado do lirismo e de metáforas acaba por tirar a atenção às situações e ações, levando o leitor a se descolar do texto e perder o interesse na fábula. o mergulho descontrolado no universo confuso dos personagens em alguns momentos distancia o leitor da história e coloca essas figuras num lugar de elucubrações desnecessárias e por vezes enfadonha, exagerando no objetivo de obscuridade e incerteza, tão importante para o texto.

ao fim do livro encontramos uma cena exclusivamente construída para dar cabo da repercussão que este acontecimento gerou no nosso país: uma jornalista, um padre, um skinhead e um psicanalista constroem suas versões e visões acerca do caso. o mais coerente? o texto não indica, não se posiciona. o que podemos afirmar é que todos nós fomos bombardeados pela mídia na construção sensacionalista do caso, e esse fato real, lucas aborda muito bem.

é nesse sentido que a arte se apropria do caso e opera no intuito de renovar o tema e retomá-lo de maneira a dar ao leitor a possibilidade de reconstruir o acontecimento à sua própria maneira, direcionando que, conforme o próprio texto: “quando o jornal não dá conta de suplantar o mistério, de esclarecer os motivos, de responder as perguntas de um acontecimento, a arte tenta cumprir o seu papel de tentar eternizar o enigma. é sempre uma mesma historia. lida ou destruída de diferentes formas”.

adentrando mais a fundo nas questões acerca da censura da peça e do livro e também na discussão sobre as biografias não autorizadas, podemos acreditar que a forma do espetáculo está intrinsecamente ligada ao conteúdo e (por que não?) ao objetivo do autor ao retomar este acontecimento.

enfrentando essa questão, nos perguntamos: qual o sentido de recorrer ao formato da tragédia na atualidade? em outros casos, de certa maneira, responderíamos que não há justificativa e que hoje os temas não mais se adequam a essa estrutura.

porém, se considerarmos que a tragédia grega operava no sentido de, dentro de uma imersão no universo ficcional do espetáculo, purgar e purificar os sentimentos de seus espectadores, o texto escrito por lucas acerca do caso isabela nardoni ainda hoje deve se direcionar no mesmo sentido em relação aos seus espectadores.

podemos genericamente indicar a catarse grega como a possibilidade de purgar e purificar os sentimentos e renovar a sociedade. é a maneira de não se esquecer de nossas próprias escuridões e de, através do acontecimento teatral, salvar a sociedade de suas próprias mazelas.

ainda hoje a montagem da companhia satyros continua censurada, assim como o livro. a discussão acerca das biografias não autorizadas muito vem a calhar ao teatro. como não tratar do homem sem se apropriar de suas inverdades, de suas incertezas e suas invenções?

as fronteiras entre a realidade e a ficção se fundem, desde o começo.


não que esta obra se trate de uma biografia, pelo contrário. mas me parece que toda a discussão que colocou a literatura na lista de temas mais importantes no brasil acerca da legitimação ou não das biografias não autorizadas, tem eco no que aconteceu, está acontecendo, com a obra de lucas arantes e da companhia os satyros. a falsa necessidade de preservação da privacidade no caso da menina isabela (quer invasão maior do que a feita pela mídia durante tantos meses?) parece emburrecer ainda mais a sociedade brasileira. apresentar ao público uma obra que recria um fato realístico coloca em cheque o bombardeio da mídia e a posição letárgica de seus espectadores. entre gregos e contemporâneos, a arte no brasil parece perder muito caso as pequenices do ego e da vida privada tomem conta de projetos e propostas da ordem do coletivo, do público.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

edital oraci gemba


em setembro a jornalista helena carnieri publicou no caderno g da gazeta do povo uma matéria sobre o edital oraci gemba do fundo municipal de curitiba que seleciona dramaturgias prontas e propostas de escrita para publicação.
no último edital fui premiada junto com os colegas luiz felipe leprevost, diego fortes e mais 3 dramaturgos e nossas dramaturgias publicadas na coleção dramaturgias curitibanas lançadas no festival de teatro de curitiba deste ano. o edital não foi lançado em 2013 e, de acordo com a fundação cultural de curitiba está sofrendo alterações e somente será publicado novamente em 2015.
diante deste fato, na matéria falei um pouquinho sobre a importância deste edital e a publicação de dramaturgia no brasil.
 

 

onde começa o teatro

fundação cultural garante continui­dade de projeto de publicação de textos de peças, mas próxima edição pode sair só em 2015

a recente empolgação nacional com os novos dramaturgos curitibanos, especialmente no contexto do núcleo de dramaturgia do sesi/pr, pode dar a falsa impressão de que só agora passamos a escrever. nada disso. profissionais atuantes desde a década de 80, como sílvia monteiro, lembram que nossos grupos se autopautavam há muito tempo. “nossa dramaturgia é silenciosa, mas presente”, define.
essa produção passou a ser documentada em 2007, por meio do edital oraci gemba, da fundação cultural de curitiba. foram quatro livros, trazendo peças inéditas produzidas por aqui.
a dúvida da classe sobre a continuidade do programa de incentivo nesta nova gestão municipal se dissipou parcialmente em reunião com o presidente da fundação, marcos cordiolli, que garantiu o retorno do projeto. mas a perspectiva temporal não é animadora: primeiro, será realizada uma nova rodada de conversas com a classe artística sobre a reformulação dos editais, para só então lançá-lo, o que poderia ocorrer em 2015. “depende de estudos técnicos. mas nos interessa a produção de literatura e de dramaturgia locais”, assegurou cordiolli em entrevista à gazeta do povo. segundo ele, o formato bienal, com a publicação de mais textos num único livro, é interessante.

memória

a última edição do dra­­ma­­turgias curitibanas (2011/2012) reuniu cinco textos. alguns já tiveram leituras dramáticas, como o beijo, de sílvia. “foi meu primeiro texto com ideia original, sem ser uma adaptação”, revela a autora, que tem experiência na área. quando ela criou o grupo delírio, na década de 80, com edson bueno e áldice lopes, as peças frequentemente tinham dramaturgia própria. “poderíamos acompanhar o movimento de teatro de grupo da cidade pelos textos produzidos, seguindo o pensamento por trás dos espetáculos.”
por isso, a publicação é vista como fundamental para a manutenção da memória da cena teatral curitibana, mas também para estimular a criatividade e a produção original.
“que eu conheça, [o oraci gemba] é o único projeto no brasil que incentiva a criação dramatúrgica, sem ser simplesmente um concurso”, contou à reportagem o autor e diretor enéas lour. ele publicou nas duas últimas edições: reivalino e dagobé (ambos os dois assassinos contratados), no livro de 2009, e otto e maria, no de 2011/2012.
a pesquisadora lígia souza oliveira, que publicou encontros diários na última edição do dramaturgias curitibanas, é uma defensora ferrenha da publicação de textos de peças – e do estímulo a sua leitura. criou o blog habitando o papel com esse objetivo, e direcionou seus trabalhos de mestrado e doutorado para essa área.
tendo acompanhado a criação de textos feitos no calor de um processo de montagem de espetáculo, ela acredita que um “texto de gabinete”, escrito independentemente pelo dramaturgo, tem suas vantagens. “há um exercício de linguagem mais profundo. por outro lado, é preciso encarar as palavras enquanto fala”, disse à reportagem.
outra alegria trazida pelo projeto à classe, na opinião de lígia, é a reunião de nomes iniciantes – como o dela própria, além de diego fortes e luiz felipe leprevost – ao da geração mais experiente, como sílvia, enéas, renato perré e luiz roberto meira.

discussão

a revisão dos editais municipais para a área cênica ainda não tem prazo para começar. por enquanto, foram realizados dez encontros com artistas da cidade de várias áreas. um dos interesses manifestados por cordiolli é o de investir em editais integrados, que pensem a produção e a circulação – inclusive nacional e internacional – de espetáculos.
um dos principais editais da área de teatro, o de ocupação do teatro novelas curitibanas, terá sua nova edição até o fim de ano, promete cordiolli.

 

 


relato de experiência - oficina de iniciação à dramaturgia


a convite da ciasenhas de teatro ministrei em julho três oficinas de iniciação à dramaturgia na periferia de curitiba para crianças e adolescente de 10 a 15 anos. as oficinas compuseram a contrapartida social do projeto do livro da dramaturga e diretora - e mestra e amiga - sueli araújo que foi lançado no mês de agosto em curitiba – narrativas em cena. 
amedrontada principalmente pela falta de preparo e experiência com esse público, aceitei a aventura e parti pra curitiba numa tarde ensolarada em são paulo, e a paisagem da chegada - um céu azul dilacerante - me enganava do frio típico de curitiba.
os locais das oficinas - uma associação de moradores, um centro de integração e um por fim um centro de assistência social - eram localizados em bairros muito distantes, onde dois deles tinham como vizinhos a mata de araucárias até o infinito. sete anos morando na cidade e nenhuma vez perambulei por essas regiões. ironia ou não, precisei sair de curitiba para então conhecer esses recantos.
as crianças eram todas muito desconfiadas, mas com o carinho e a dedicação dos professores/educadores me senti acolhida e a vontade, o que provocou uma catarse bonita e doce.
no começo pedi pra cada um se apresentar e dizer o que mais gostava de fazer, um hobby, para que eu pudesse conhecer um pouco o universo daquelas crianças e para que as suas particularidades pudessem me tocar um pouco, apesar do pouco tempo da oficina.
logo de cara percebi que o mais importante era mostrar que eles podiam, deviam, se sentir a vontade. a cumplicidade para começarmos uma oficina de escrita – algo tão pessoal e obscuro - era necessária desde o início. portanto declarei as duas primeiras regras: não existia certo ou errado nos textos que iríamos produzir e ninguém seria obrigado a ler seus textos, somente quem se sentisse a vontade - afirmação que provocou uma tranquilidade geral: ok, agora podemos começar!
começamos então a conversar sobre o que era dramaturgia. com palpites e achismos à vontade, fomos construindo coletivamente essa ideia e da mesma maneira também conversamos sobre a narrativa e também sobre a poesia. ao longo do dia fomos criando e descobrindo também como a fronteira entre esses gêneros foram sendo destruídas.
a primeira proposta de escrita foi livre e libertadora, todos nós escrevemos através da escrita automática durante alguns minutos, no qual não há nenhum filtro e nenhuma racionalização. sempre começávamos com “eu não sei o que escrever”, mas a ideia era não parar, não desistir. e então personagens, espaços, tempos, temas e universos inteiros eram criados. já éramos escritores.
passamos para a próxima conversa. o que é uma história? mais uma vez o quadro ficou repleto de definições, muitas vezes antagônicas, como eu esperava que fosse. e então o desafio: vamos tentar escrever um texto sem história. sim, detectamos que era impossível e que uma notícia de jornal era uma história, uma bula de remédio era uma história ou uma mínima palavra.
até que nesses desdobramentos ele surgiu: o leitor!
subíamos um degrau. conversamos sobre o leitor e também sobre o espectador e então voltamos para a dramaturgia. seguimos toda a oficina fazendo experimentações com e sobre a palavra e o mais importante, sobre nós mesmos, que nos expusemos e nos desafiamos a lermos nossos textos, ou ainda a interpretar o texto do meu amigo do lado, reescrevendo sua história, não entendendo ao certo sua intenção e até mesmo xingando sua letra: o escritor encontrou seu primeiro leitor.
desenvolvemos o diálogo e a narração dentro dessa história que construímos na escrita automática. por fim, ao falar do lírico, falamos do que há de mais particular e escondido em nós mesmos! éramos cúmplices naquele momento.
falamos sobre família, sobre sonhos, sobre futebol, sobre roubos, mortes, amigos, sobre a escola, sobre o primeiro beijo, funk, vídeo game e também sobre aquela vez em que ele foi com o melhor amigo ao lago no fundo daquela mata, várias vezes escondidos de suas mães. até que o melhor amigo, morreu: leptospirose. sim, a culpa era minha. porque ele e não eu? ele era meu melhor amigo...
só me entregava seus textos quem quisesse. minha mochila voltou pra são paulo cheia de histórias, uma nova a cada palavra. mas essa, a história do melhor amigo, não. ele levou consigo o pedaço de papel. aquele papel era um pedaço dele mesmo, não poderia mais viver sem aquelas palavras. nem eu.
e foi por isso aquele pedaço de papel veio para cá.

 
obrigada curitiba

obrigada ciasenhas de teatro pela oportunidade.

 
 
evoé dramaturgia
 
sempre...

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

janela de dramaturgia - quinto encontro





quinto encontro
 


quinto  encontro já é relacionamento sério?
não, eu não conheço belo horizonte e os amigos são poucos. mas o convite feito pela equipe do janela de dramaturgia me incitou a, mensalmente, habitar essa cidade: as ruas, as casas, os becos, cada pessoa...
com a janela do meu escritório aberta - a paisagem concreta de são paulo - a viagem me fez conviver, através das palavras desses dramaturgos, com atmosferas tão particulares daí.
atmosferas estas que tantas vezes se constroem por aqui também: o que é dramaturgia? qual o grau de relação com o leitor/espectador? qual a articulação da palavra? qual o grau construtivo das imagens? é literatura? é cinema? é teatro?
sim, esse espaço também foi feito pra isso, pra discutir a linguagem.
mas acima de tudo encontramos nos textos um rapto, uma centelha de subjetividade, de particularidade que ressoam em nós com algum tipo de esperança. afinal, eu encontrei você mensalmente e essa presença invisível que se constrói na folha de papel (ou na tela do computador) certamente diz muito sobre o que toca, o que compartilha, o que encontra...
de fato, o céu é o mesmo... e eu construo com você, lendo, a nossa obra.      
evoé dramaturgia...
vida longa ao janela!!!!
 
 
a carne sua joão filho
 


a carne sua dramaturgia de joão filho se configura em duas partes. neste pequeno texto iremos nos debruçar sobre a primeira parte e a introdução da segunda.
o texto apresenta o cotidiano de um homem. certamente, o texto se elabora a partir de configurações da rotina. em trechos que alternam a primeira e terceira pessoa acompanhamos os acontecimentos deste personagem que apresenta um programa de tv chamado “todo dia” (uma ligação direta com o seu cotidiano repetitivo), no qual ensina receitas culinárias.
 
em toda  a primeira parte acompanhamos as ações deste homem dia após dia, referenciado pela indicação insistente dos horários. dentre as ações está o zelo com o seu peixe rex, que retratando a sua solidão, faz paralelo também com o seu ofício: a exposição.
 
percorremos, através de seu cotidiano, a construção de uma comparação entre a exposição do peixe no aquário da estante com a sua exposição diária na tv: “volto aos objetos, de plástico, alguns de vidro, madeira, papel, líquidos, tecidos... tem uma carne na estante. a carne sua. não é você. cadê você? você estava aqui agora! ao lado do abajur, de pé... cadê você? como assim?”. ao mesmo tempo que em que a carne está exposta frente às câmeras, o peixe está exposto na estante, ele também se expõe, mostra sua carne e a transforma num objeto, numa coisa.
 
duas chaves de entendimento encontramos neste texto. a primeira em relação ao titulo, que compõe dois significados para o termo sua: o pronome possessivo e a conjugação do verbo suar. nesta duas possibilidades encontramos a antagonia: a carne enquanto domínio, o peixe e ele próprio é um objeto de posse e ao mesmo tempo a carne tem vida, se revela enquanto corpo, que chora, sangra, sua e sente.
 
a outra chave de entendimento se faz no nome do canal o qual o homem trabalha: tv terapia. neste sentido, algumas indicações do texto podem nos revelar também o intuito do autor ao nos escrever estas palavras: “tenho um altar de apegos” ou ainda “isso só diz respeito a mim”, nos fazendo intuir que toda a construção do texto passa por uma relação autobiográfica muito forte. afinal de contas, todo o texto o é, o que percebemos neles é a vontade de esconder ou de exibir essa amplitude particular. o autor aqui também expõe a sua carne.
 
num trecho que finaliza a primeira parte, observamos um fechamento acerca destas carnes expostas: “zé́ põe pra despertar uma bomba dentro dele todos os dias. pra lembrar de não esquecer. ele vê seus olhos no espelho, sente sua carne abatida, mentirosa, fraca, estúpida. ele se coloca na estante, as pessoas o observam por alguns instantes, a carne fica exposta. passa um tempo, a carne sua, fede. até ficar desinteressante, perecível. ele erra, fecha os olhos e explode. adormece!”
 
já a concisa segunda parte, ainda em fase de construção, nos mostra a mesma condição deste personagem agora escrita a partir de outra arquitetura de linguagem. numa construção mais lacunar, as frases são inteiramente sugestivas e nos põem em contato com a condição material das palavras, sua sonoridade e sinestesia. em contraponto à materialidade da palavra, o que se apresenta é a liricidade deste personagem, com suas dúvidas e incertezas, sua tristeza na visão afastada, um pouco mais consciente talvez, de toda a sua condição rotineira.
 
 
miração – rafael fares.




o texto de rafael fares, miração, é divido em cinco partes e conta com as seguinte subjetividades: paisagem, pensamento e mirante. aqui chamaremos de subjetividade pois elas não delineiam o que consideramos ser personagem, com características e identidades particulares e delineáveis.
 
a situação é dada de pronto, nas primeiras páginas. alguém participa de um ritual onde se ingere o chá ayahusca. e então todo texto segue dando informações que se desdobram a partir desta experiência.
 
as instâncias de pensamento e mirante tem todo o seu discurso construído em primeira pessoa, a primeira dando olhares mais objetivos e indicativos de toda a situação, e além disso, revelando as experiências do chá de maneira mais prática e a segunda com uma percepção mais sensorial e intuitiva dessa experiência. já a paisagem, delineia toda a situação como um olhar de fora, dando descrições de todo o percurso deste sujeito e também do espaço no qual está inserido.
 
a escola impressionista tem uma característica que vai ao encontro deste texto. fora de uma discussão determinista, as pinturas impressionistas não desenham uma linha que delineie o sujeito, separando-o da paisagem em que está inserido. neste texto também acontece isso. as instâncias em primeira pessoa, o pensamento e o mirante juntamente com a instância em terceira pessoa, a paisagem, dão pistas deste sujeito o qual acompanhamos a experiência. o espaço, as sensações e os pensamentos se entrecruzam e nos apresentam esse sujeito lacunar, sem contornos definíveis em relação aquela situação, o próprio texto dá as chaves de entendimento: “o que saiu de mim me desfez, desfazendo a minha fronteira com o mundo”.
 
o texto segue dando enfoques às alucinações deste sujeito. a utilização de drogas na construção de um pensamento sobre a arte é decorrente na história. um desses momentos é o simbolismo, o que muito pode se ligar a este texto. em seus escritos, eles acreditavam ser através do uso do haxixe que se podia alcançar possibilidades que muito serviram à arte, religando o artista à uma esfera divina.
 
a citação de diversos artistas, escritos, músicos, usada para referenciar a arte enquanto ritual, enquanto experiência sensorial, é recorrente em todo o texto.
 
porém a maior questão do texto me parece ser a dosagem das certezas do autor em detrimento à experiência estética. as experiências do pensamento parece se espandir em detrimento das outras instâncias, trazendo ao texto um ar informativo beirando o manifesto. a arte enquanto ritual fica mais no discurso e pouco atinge à linguagem apreendida, e consequentemente o leitor. a necessidade de instaurar essa noção ritualística da experiência, de certa maneira contextualizando o leitor, acabou por ser enfática a ponto de nos afastar de qualquer possibilidade de acesso ao sensorial e sinestésico do texto. o leitor acompanha o percurso desta experiência mas dela não se apodera.
 
a questão pode ser que seja a dosagem entre o convite ao ritual, apresentando como maneira de acesso à experiências distintas, e a sua informação, de forma que o texto não se aproxime do hermetismo mas tampouco de apresente mais indicativo do que convidativo. 
 


mais informações sobre o projeto em: www.janeladedramaturgia.wordpress.com

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

janela de dramaturgia - quarto encontro





quarto encontro



o que é dramaturgia?
em nossos tempos parece que qualquer tipo de afirmação irá delimitar e ferir as possibilidades de atuação na relação texto e cena.
e como foi no  teatro do pós-guerra, a fixação de características e pontos nevrálgicos da linguagem na contemporaneidade, acabará por diminuir a individualidade de cada obra.
ao mesmo tempo, faz necessário que, cada dramaturgo, ao escrever uma obra, possa apresentar sua concepção de dramaturgia, não como um teatro tese, mas em sua própria forma, que deve tensionar, cortar, explodir os preceitos indicadores da tradição.
são espaços como o janela de dramaturgia que devem ser referenciados por sua classe. o desejo de refletir de maneira mais abrangente a ideia múltipla do texto teatral na contemporaneidade impulsiona a produção e o deleite de obras cada vez mais arriscadas.
 e com isso o teatro ganha, e muito!
 
elon rabin não acredita na morte ricardo alves jr e diego hoefel
 


elon rabin não acredita na morte é uma adaptação do roteiro de mesmo nome escrito por ricardo alves jr. e diego hoefel. acompanhamos um recorte específico da vida de elon rabin, um senhor de meia idade que está à espera e também em busca de sua esposa desaparecida, madalena rabin.
 
a narrativa conta com 10 personagens, alguns bem pontuais, como as atendentes do hospital e 2 homens que conversam, maldosamente, sobre a sua busca pela mulher; e outros mais presentes, como a irmã de elon, que tenta reanimá-lo e colocá-lo de volta no eixo da vida cotidiana ou ainda, rita, uma amiga que deixa escapar um afeto especial por esse homem, porém, a possibilidade de alguma relação entre os dois fica somente no campo sugestivo.
 
para destacar as nuances deste percurso de elon, o texto dá cabo de um narrador que descreve cenas inteiras, instigando o  leitor a visualizar detalhes dos movimentos dos personagens, e também explodindo o tempo-espaço geralmente limitado da maioria das dramaturgias tradicionais.
 
o mais interessante do texto é a despreocupação com um enquadramento do que preconcebemos ser dramaturgia. é cada vez maior a interação entre as linguagens e, independente de recursos linguísticos característicos de cada gênero - o teatral e o cinematográfico - o texto revela nuances de uma poética potente e instigante, e acredito ser isso o maior ganho da escritura.
 
a ideia de aderência a uma linguagem, atendendo as arquiteturas de construção características de cada proposição, me parece ultrapassada. até mesmo porque na contemporaneidade os recursos estão cada vez mais híbridos. separá-los, nomeá-los, identificá-los seria uma perda, já que, corroborando com o heiner muller, a dramaturgia que mais interessa é aquele em que se faz impossível sua encenação.
 
uma reflexão oportuna é justamente a necessidade de se perceber qual linguagem o material sinthomático pede. o argumento pensado para uma linguagem específica vai pedir de seus autores uma energia específica, diferente de outro gênero. e então a concepção, a resposta à pergunta, o que é dramaturgia?, ou o que é roteiro?, se apresentam na própria obra, revelando em seu próprio material a resposta que alguns leitores, espectadores, procuram. cada obra deve se relacionar com a linguagem de maneira singular e inventiva. esta me parece ser a chave do pensamento contemporâneo.
 
para uma nova dramaturgia, novos espectadores, já diziam juliana galdino e roberto alvim. o texto elon rabin não acredita na morte levanta alguns padrões distintos do pensamento acerca do texto teatral. apesar de propor recursos linguísticos simples - o uso alternado da narração e da intersubjetividade - o ganho do texto parece ser a sua poética, lacunar e indiciosa, ressaltando no silêncio principalmente do personagem principal - um turbilhão que se refere justamente à condição humana, complexa e tão particular.
 
 
embriões de aniquilamento do sujeito – guilherme lessa
 


o texto de guilherme lessa embriões de aniquilamento do sujeito é divido em 3 partes distintas que ele denomina como embriões 1, 2 e 3. anterior às três cenas encontramos o excerto: no combate se conhece o homem. no combate o homem se conhece. sugerindo uma possibilidade de conexão das cenas tão distintas.
 
o embrião número 1, denominado "homem seccionado", o mais denso dos três, apresenta dois sujeitos em situações antagônicas, um deles, preso a uma cadeira, já não concebe a sua vida fora do cativeiro. o outro homem, uma espécie de capataz, explica: minha estratégia para me dar bem sempre foi me dar mal, justificando a troca de lugar com o preso, ficando então entrelaçado na mesma corda. a troca apresenta a poeticidade da ação; ao mesmo tempo em que desenrola o preso, prende a si próprio revelando a máxima: no momento em que você age, você está preso. na rubrica final, quando da troca de lugares, percebemos que o tempo todo se tratava da condição de um só homem que, seccionado, se divide em dois, um que vai em direção à janela, libertando-se e outro que permanece sentado, imóvel.
 
o segundo embrião, "eu, por exemplo" apresenta uma senhorinha que fala de maneira verborrágica, de fluxo contínuo, sem nenhum crivo. com nuances extremamente realística, a cena apresenta um momento da vida desta senhora de mais idade que monologa com um desconhecido num ponto de ônibus. discorrendo sobre a sua franqueza extrema, ela indica: "as pessoas têm que ser mais sinceras"; mas ao mesmo tempo atesta que "honestidade não é recomendável". um trecho da fala da personagem revela também a forma como a linguagem se apresenta nesta parte: eu não entendo e realmente não suporto gente que fala por meio de sinal, de metáfora, de paráfrase, analogia.
 
já o embrião número 3, se a cobra estiver com fome, apresenta um casal num primeiro encontro com o terapeuta discorrendo sobre seus problemas conjugais, principalmente no que diz respeito à rotina sexual do casal. o marido é norueguês, fazendo com o texto o apresente com um português atrapalhado. entre conflitos diversos, o terapeuta encerra a sessão e então desmarca toda a sua agenda de consultas do dia. uma rubrica indica que ele se dirige até sua casa e a base de remédios, adormece às 3 horas da tarde.
 
a conexão entre os três embriões não fica claro. o formato que podemos entender neste texto seria a da "livre associação" no qual, imagens, textos, objetos são agrupados aleatoriamente propondo ao público que se coloque na construção dessas conexões. o formato é característica principalmente da literatura surrealista, a partir da prática na psicanálise de freud.
 
o título também nos sugere algum tipo de leitura: o aniquilamento do sujeito. não sendo desenvolvida através da linguagem - que ainda apresenta um argumentação extremamente usual e cotidiana, característica principal do personagem burguês com identidade e constituição una - o aniquilamento pode ser percebido, talvez, nas situações colocada em cena, no qual o leitor percebe os personagens submersos pela pequenez da existência humana cotidiana.

mais informações sobre o projeto em: www.janeladedramaturgia.wordpress.com